• Tassi Oliveira

Vai ficando cada vez mais difícil

O meu texto hoje é sobre o diálogo. Há algum tempo, eu venho me preocupando com a forma de dialogar com outras pessoas, principalmente, com pessoas diferentes de mim. Enquanto professora, eu percebo que preciso me esforçar cada vez mais para atingir um canal de comunicação com meus alunos e tento utilizar isso para a vida com amigos e família também. É muito difícil e muitas vezes eu não consigo e, hoje, eu quero falar sobre minhas frustrações em relação a isso. Não, não sei como dialogar, estou querendo aprender.


Como é ser professora?


Ser professora em uma era de pós-verdade, desconfiança com a ciência e inversão de valores acadêmicos é claro que é difícil. Em um encontro na sala de aula, é você (professor) versus dezenas de pessoas que têm histórias próprias, vivências únicas e que estão ali contigo por duas, três horas por semana e só. Cada uma dessas pessoas cria expectativas sobre você que, claro, você sabe que não tem como atingir. Mas, quando você não atinge, isso pode ser um grande problema. A questão interessante é que o problema surge silenciosamente, já que você nem sequer estava sabendo das expectativas que viriam a ser frustradas, ninguém te contou. Você não tem como prever que alguém está decepcionado sem que esse alguém te informe e aí, mais uma vez, perde-se a oportunidade do diálogo e da resolução de problemas.


O primeiro exemplo de diálogo aqui, então, é o do relacionamento professor-aluno. Cada semestre e cada turma me trazem experiências completamente opostas. Noto que a depender da forma que eu fale a mesma informação eu posso ter reações diferentes em turmas diferentes. Pode ser que eles me amem ou me odeiem. Pode ser que eles me ignorem ou me ouçam com paixão. O problema é que quando se atinge o nível do ódio (ou do ranço) não tem como voltar atrás, a relação está perdida por mais que você se esforce. Na era do cancelamento virtual, os cancelamentos físicos também ocorrem muito facilmente.


O segundo exemplo de dificuldade de diálogo está relacionado ao conteúdo. Explicar a cientificidade da informação não basta hoje em dia. Tudo é matéria de opinião, aparentemente. A ciência parece tão simples quando diz que: "para discordar do que foi achado, basta encontrar um modelo de pesquisa melhor e refazer". Na prática, para discordar basta dizer: "mas essa é sua opinião". Ah, citar grandes nomes também não vale, já que você pode ser acusado de dar "carteirada". Como você consegue superar isso ainda é muito difícil de explicar. Continuo buscando respostas na ciência. Claro que ter um plano de aula bem fechado ajuda, já que podemos falar sobre um determinado tema ligado a um determinado autor que já estava lá no plano. Mas será que corremos o risco de alguns autores saírem dos planos (estou falando de Marx e companhia) e nem sequer poder utilizá-los mais em sala de aula?


Aliás, em aulas sobre Marx eu vejo olhos revirando, alunos com camisa de Bolsonaro intimidando, pesquisas no celular para formular perguntas "capciosas" e até respostas em provas do tipo: "Não acredito em Marx, então não vou responder essa questão". Como lido com isso: eu sempre peço que ouçam, leiam, aprendam e depois critiquem. Só é possível a crítica com conhecimento. Não sinto que consigo fazer com que façam isso, mesmo assim continuo tentando. Acho que esse é meu propósito enquanto professora.


Como é ser filha?


Dia desses, ouvi um podcast muito bacana (Dilemas) que foi indicação de uma amiga minha em que o episódio falava sobre o dilema de ter um indivíduo da família que não respeitava a quarentena por não "conseguir ficar em casa". A família estava trabalhando de casa, se afastando dos amigos e familiares, exceto pelo marido que continuava com suas atividades de lazer e encontros com seus amigos. Os debatedores falaram com toda a conexão ao meu coração quando disseram que: "mas isso é o cúmulo do egoísmo". E de fato é.


Ninguém, ninguém, ninguém está totalmente feliz com essa situação. Tem gente que está vivendo dias de estresse extremo, cuidando de crianças, tentando trabalhar enquanto cuida de crianças, sofrendo violência física e psicológica de abusadores, se afastando de quem mais ama no mundo e MESMO ASSIM essas pessoas estão dentro de casa. Por que? Porque o momento não é de individualismo, não é sobre você. (Parada aqui: no caso da violência, é preciso buscar ajuda. Ligar 180, falar com uma amiga, fugir, correr: não fique em casa). O momento é sobre o outro, sobre solidariedade. Se você tem o privilégio de ficar em casa, você vai ser um elo a menos de contaminação. E, sim, você sozinho não tem poder de acabar com todo o problema, mas você SOZINHO tem o poder de piorar o problema!


Toda a minha frustração vai no sentido de não conseguir fazer uma pessoa muito importante para mim compreender isso. Ele não consegue deixar seu egoísmo de lado e ficar 24h em casa, mesmo tendo todas as características de um paciente que nem conseguiria uma cama de UTI, caso o médico tivesse que escolher. Essa pessoa, ainda por cima, vive com toda a minha família e todos também são grupo de risco. Me pergunto se ele não pesa entre o seu egoísmo e ver o filho dele entubado (sem entender o que acontece) em um hospital. Se a escolha dele apenas o afetasse, com todo o pesar mesmo assim, eu não reclamaria. Só que este não é o caso. Aqui fica minha maior frustração da quarentena e meu maior motivo de ansiedade: a ideia de que posso perder ou ver toda a minha família sofrer porque uma pessoa se nega a acreditar na gravidade da situação.


Como é ser "amiga"


Não vou chamar de "amiga" propriamente porque meus amigos vivem dentro da minha bolha iluminada pela ciência e pensamento crítico.

Aleluia. Mas eu tive que construir essa bolha e tive que retirar muitos do meu convívio. Eu fiz isso já há algum tempo, tem mais de um ano que resolvi me afastar daqueles que não conseguia estabelecer um diálogo racional. Todos aqueles que tentei ouvir, tentei contrapor mas esbarrava no: "essa é sua opinião".


Nessa limpeza, foram embora "amigos" do colégio, da faculdade, do convívio diário em academia (aliás, é muito estranho manter contato com a pessoa que você resolver deletar do diálogo). Foi dolorido, sim. Foi o movimento mais inteligente? Acho que não. Seria mais importante se eu mantivesse o diálogo e construísse essa ponte entre o mundinho deles e o meu mundinho. A falta dessa ponte é o grande problema hoje e é o motivo de eu escrever esse texto tão grande. Eu errei de fato, mas errei para proteger meu emocional. Cada vez que olho para uma pessoa que deliberadamente diz e faz coisas machistas, xenófobas, homofóbicas, racistas e se dizem orgulhosos por isso (o fato de você seguir e ainda apoiar o Presidente atual está incluído nessa lista) me dá medo e desesperança. Para que eu continue com alguma esperança na humanidade, eu precisei me afastar.


* Adicionando aqui uma exceção: não estou falando de tentar construir diálogo com estranhos e até amigos nas redes sociais (twitter, facebook e instagram). Essas redes trabalham com algoritmos e, quanto mais comentários as pessoas têm, maior o alcance daquele post na rede social. Então, o diálogo tem que ser cara a cara ou por whatsapp, se você for forte.*


E aí... confesso que é engraçado ver, hoje, algumas outras pessoas fazendo o mesmo. Mandando mensagens para mim: você estava certa, não dá para conviver com fulano/a. Certa eu continuo dizendo que eu não estava e não estou. Mas admiro a coragem e a resiliência de quem ainda mantém essas pontes erguidas. Afinal, o diálogo só é possível se ambos decidem ouvir, certo?

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