• Tassi Oliveira

Semana dois do distanciamento social: o que foi isso?!

Atualizado: Abr 7

Contagem de hoje: 4256 casos e 136 mortes.



Ninguém avisou que nessa semana precisaríamos de doses extras de juízo. Cheguei no meu limiar de surto, mas eu percebi que não estava sozinha nessa. Parece que voltamos a 2018 e o Brasil está ainda mais rachado. O problema é que este é O momento da história que nós precisaríamos mostrar mais união e força. Não dá para enfrentar uma pandemia nessas condições. Só que mais uma vez me pergunto: como dialogar com quem não consegue ouvir? Como explicar algo para quem sabe de tudo? Imagino o desespero de ser epidemiologista e/ou economista nessa hora. Os dois tipos de estudiosos que mais estão tentando ensinar sobre as consequências de uma pandemia. Como lutar com a desinformação e as falsas notícias? Eu não sei, nem pense que estou aqui para responder isso.


Tudo começou com...


... uma medida provisória publicada na noite do domingo passado. O Brasil foi dormir depois de ver a formação do paredão do BBB feliz porque Prior pegou o bastão dourado (se você é daqueles cult-chato-metido-a-só-ver-filme-de-uma-língua-que-ninguém-fala e não vê BBB, pena. Quero ver o que vai ser desse país sem esse cano de escape) deixando Daniel no paredão. Quando acordamos, a primeira coisa que vejo foi uma explicação sobre a MP 927 de uma colega professora. Claro, me perguntei, que MP é essa? E fui atrás de ler seu conteúdo. Horas depois só se falava dela.


A medida provisória traz alguma flexibilização para os contratos de trabalho para o período em que o Brasil estiver sob estado de emergência nacional. Medidas que são necessárias, claro, precisávamos estar preparados para quando o vírus chegasse, mas uma das propostas atraiu mais atenção. Um dos artigos permitia que empresas oferecerem um curso de qualificação para os seus empregados durante quatro meses (permanecendo o vínculo empregatício nesse período) e pagasse uma ajuda de custo, suspendendo o salário. A ajuda de custo seria acordada individualmente entre patrão e empregado. E é isso.


Confesso que fiquei chocada e fiz meu escândalo nas redes sociais, engrossei o coro de pessoas revoltadas. TODOS os jornais falaram sobre isso o dia inteiro e sobre a reação e, antes do anoitecer, Bolsonaro mandou tirar o artigo da MP já que ele estava "apanhando demais". Palavras dele.


Logo eu entendi que estávamos diante de uma caos social, econômico e de saúde pública de nível global e nós temos simplesmente o pior líder possível para enfrentar isso. Para se ter ideia da gravidade do problema, acabo de ler no twitter da DW News (@dwnews) que o Ministro das Finanças do estado alemão de Hesse, Thomas Schafer, aparentemente cometeu suicídio em desespero por conta da escalada de responsabilidade estatal para dar conta da crise causada pelo novo coronavírus. É coisa pouca? É não! É gripizinha? De jeito nenhum. E infelizmente o líder do Brasil não está levando a sério, mas ficou pior.


Convocação às ruas


No dia seguinte, em pronunciamente à nação, Bolsonaro voltou a chamar a doença de gripizinha, em um tom mais elevado de ironia e ódio. Ele convocou o povo a voltar à vida normal em nome da economia. No dia seguinte, o cenário já era outro. As pessoas de fato estavam nas ruas e agiam como se nada estivesse acontecendo. Logo, uma chuva de mensagens, vídeos, textos gigantes falando sobre como também é necessário proteger a economia e salvar as pessoas de morrerem de fome. Do nada, vimos grande empresários preocupados com os empregos da classe trabalhadora (eu não sei porque nunca vi o dono da Havan fazendo campanha social para melhoria das condições de vida de quem precisa antes). E aí o discurso já estava pronto e a população dividida de novo: pró-saúde pública ou pró-economia? Diga quem você é!


Pandemias causam crises econômicas...


... não as políticas de combate e enfrentamento a elas. Essa semana também trouxe coisas interessantes. Para mim, o mais interessante foi encontrar o artigo Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flu. Ele foi escrito por economistas norte-americanos os quais analisaram a crise trazida pelo vírus da influenza em 1918. A conclusão foi: pandemias vão trazer crise. Não tem como fugir da crise econômica, mas tem como minimizar os seus efeitos após o fim da pandemia. Para eles, de acordo com a observação de diversas cidades norte-americanas, as cidades que implementaram desde cedo o que eles chamaram de "intervenções não-farmacêuticas" conseguiram se recuperar mais rapidamente após o pico. Dentre essas intervenções, está o isolamento social.


Tudo isso quer dizer o seguinte: não existe dilema entre saúde pública e economia. Não existe essa dicotomia. Não é um ou outro, como eu mesma já defendi em algum momento por falta de compreensão melhor. Em todos os cenários haverá crise econômica e crise de saúde pública. Contudo, é urgente que o Estado crie saídas para que a economia possa se sustentar e o sistema de saúde consiga atender a quem precisar. Nesse momento, o Estado é o único que pode salvar. Não tem como contar com a boa vontade do mercado. Percebeu como o Brasil está batendo cabeça a toa?


Se for muito difícil imaginar olhando para trás, o Brasil tem outra vantagem. Ele não foi o primeiro país a ter o surto da doença. Vários outros passaram por isso primeiro e podemos implementar o que deu certo e evitar o que deu errado neles. Claro, também compreendendo como é a dinâmica social brasileira (que é única). Aí entram os cientistas sociais, porque nem só de biólogos se faz o combate a uma pandemia! Reunindo o conhecimento das ciências sociais e do que foi produzido até então nas outras áreas, podemos superar isso. Só que enquanto o presidente mais uma vez testa a paciência de quem é sério nesse país com mais um movimento populista (ele visitou o comércio de Brasília hoje), nós continuamos perdendo janelas de oportunidade.


Uma analogia feita por um entrevistado no podcast Café da Manhã da Folha essa semana foi bem interessante. Imagine que desde que tudo isso começou, o Brasil teve várias janelas de oportunidades para começar a agir. Como se fossem saídas de retorno em uma rodovia. Cada vez que perdemos uma saída, precisamos dirigir mais até a próxima. O Brasil já perdeu algumas, mas ainda dá tempo de pegar a próxima antes de se perder de vez.


Não é hora de queda de braço, gente. Não é só uma gripe. Não estou disposta a sacrificar meus pais nem meu irmão. Precisamos nos unir e respeitar as recomendações de quem estudou muito para isso! Fica em casa se der. Se não der, cuida da higiene. E quem tem mais, reparte com quem não tem. Bora!


P.S.: Geraldo Júlio, por favor, determina multa pra idoso que sair de casa. Só assim meu pai respeita a quarentena.


Imagem: Pixabay

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