• Tassi Oliveira

Príncipes (e a emancipação do projeto de princesa)

Quando eu era criança, meu pai comprava um livro por semana para mim. Invariavelmente, livros de princesas. Branca de neve, Rapunzel, Cinderela... pode listar que eu li.

Depois de alguns anos, acompanhei as novelas com minha mãe. Era um momento de família reunida em frente à tevê, então tudo era muito natural. Depois da novela, conversávamos sobre o que tinha acontecido: “ahhh aquele ator é muito lindo!”; “você viu aquela cena, menina”. E, de novo, no último capítulo a vilã ou o vilão eram desmascarados e vingados enquanto a mocinha e o mocinho casavam e tinham filhos.


Naquela mesma época, minha brincadeira favorita era brincar com as Barbies de uma vizinha rica que eu tinha. Ela tinha um quarto de brinquedos! Sabe o que é ter um quarto só pra brincar? Eu nunca soube... tinha que dividir o quarto com meus dois irmãos e sobrava pouco espaço para os poucos brinquedos que tínhamos.


O nome dela era Maria e ela ainda tinha todas as Barbies possíveis e imagináveis, a casa completa da Barbie, o carro... enfim, tudo que estava disponível para compra. A melhor parte é que ela adorava receber outras crianças porque ela não tinha com quem brincar.


Então, nossas tardes eram vividas criando cenários imaginários para nossas Barbies. Eu era sempre médica, casada e com filhos. A gente disputava para ver quem tinha a vida mais perfeita: o marido mais bonito (essa parte era fácil com os Kens disponíveis da coleção dela), os filhos mais perfeitos, o trabalho que pagava mais.


Na adolescência, a disputa não era mais pelo cenário ideal de vida das nossas Barbies, mas sim, o menino mais bonito da sala, da escola ou dos grupos em que frequentávamos. Aquelas que conseguiam mais atenção dos meninos, era a mais “famosa”, mas também era a mais “falada”. Foi aí que eu comecei a achar estranha a lógica da coisa: nós queremos ser queridas e disputadas, mas não podemos aceitar os convites porque poderemos ficar mal-vistas. Essa reflexão não foi tão fácil, demorou bastante para chegar.

A situação não mudou muito na faculdade... aliás, a faculdade parece mais uma extensão da adolescência só que com a pressão de arrumar um emprego e se firmar na vida. Os mesmos dilemas amorosos seguiam, agora, se você não havia encontrado seu "príncipe" ainda, o perigo era nunca mais encontrar. Os anos de juventude passam rápido.


O amor romântico como o das novelas, como o que imaginava nas brincadeiras com as bonecas foi perdendo espaço, aos poucos, para a realidade. Com o mergulho dentro do mundo e a abertura para o conhecimento, a idealização desaparece como fumaça. Os trinta me provaram que 1 - não existe ninguém perfeito; 2 - a medicina nunca foi para mim e 3 - eu não quero ter filhos.


O ideal de amar é ser livre. É poder fazer suas próprias escolhas, viver sua vida, sair e voltar, amar e desamar. Sem liberdade, não há quem sobreviva. É preciso se livrar de várias amarras para finalmente chegar à emancipação, mas começa entendendo que tudo aquilo que você aprendeu enquanto criança e adolescente pode estar errado... e tá tudo bem! Sempre há tempo de reaprender a andar (sozinha).

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