O que está acontecendo com o Brasil?

Texto publicado originalmente no Medios Lentos


(Atenção)

Eu não moro no Rio de Janeiro, muito menos em uma de suas favelas. Moro na capital de um estado do Nordeste do Brasil que tem uma dinâmica bem diferente da realidade do Rio. Não é que somos livres da violência urbana, pelo contrário, também vivemos problemas com o uso e tráfico de drogas, assassinatos e roubos. Apenas a dinâmica é completamente diferente.


O Rio não é para principiantes. Escrever sobre isso foi um pedido da equipe editorial dos Medios Lentos o qual eu demorei bastante para entregar justamente por conta do grande desafio. Certamente existem jornalistas trabalhando e reportando o que acontece hoje nas favelas e comunidades do Rio de maneira muito melhor e eu vou deixar, ao final deste texto, alguns links para quem quiser acompanhar.


Tendo feito este alerta, eu vou tentar fazer um resumo do que vem acontecendo hoje no Rio de Janeiro, especialmente após o início do governo Witzel. O que para o leitor pode parecer absurdo, provavelmente não será nem 10% da realidade.

...

O Brasil é o maior país da América do Sul, tem aproximadamente 210 milhões de habitantes e uma das vinte maiores economias do mundo. Nos últimos anos, não é novidade para o mundo que o país está enfrentando uma crise complexa que tem várias razões: econômicas, políticas, sociais. Em meio a tudo isso, passamos por novas eleições em 2018 para a Presidência da república e governos estaduais. O que aconteceu com a presidência da república já foi comentado nesta mesma coluna, mas algumas lideranças dos governos estaduais começaram a chamar a atenção da mídia internacional recentemente e é sobre uma delas que vamos falar hoje, o governo do estado do Rio de Janeiro.


O Rio de Janeiro é, talvez, o estado mais famoso do Brasil. Lembrado por suas belezas naturais, um misto de praia com formações rochosas espetaculares, o estado é de fato um dos orgulhos nacionais. Contudo, o Rio também é lembrado por ser cenário de guerras entre traficantes e policiais há anos. Os últimos governos tentaram acabar com o tráfico de diversas formas: de polícia comunitária a intervenção militar. Nenhuma política de segurança deu certo até hoje.


Voltando a 2018, ano de eleição, todos os candidatos tinham como problema central nos debates a violência. Witzel, o vencedor das eleições e atual governador, começou com apenas 1% das intenções de votos. Ele é ex-juiz e católico, mas durante a campanha se uniu a um partido evangélico atraindo os votos desse grupo no estado. Em algum momento da campanha, ele aumentou o tom do discurso falando coisas como: “alguém com um fuzil na mão é risco iminente e será abatido". Quando perguntado em entrevista para um canal de Youtube sobre o que ele teria para falar para seus eleitores, ele respondeu: “Não saia de fuzil na mão, saia com uma bíblia. Se você sair de fuzil, nós vamos te matar”.


O ex-juiz conseguiu atrair mais eleitores ainda quando se alinhou a Bolsonaro durante a campanha. Venceu no primeiro turno com aproximadamente 41% dos votos e ganhou o segundo turno com quase 60% dos votos dos eleitores fluminenses.


Aparentemente, no seu primeiro ano de governo, ele tem cumprido a promessa da campanha. Houve uma escalada na violência estatal no combate ao tráfico de drogas que levou ao incrível número de 881 mortes decorrentes de confrontos com a polícia em 6 meses nesse ano. Reportagem do UOL de 20.08.2019 analisa esses números divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro. Em maio deste ano, segundo a BBC News Brasil (07.05.2019), uma operação conduzida pela Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil, deixou oito mortos e três feridos, entre elas uma criança, de acordo com a ONG Redes da Maré. É o resultado da política de abate do governador Witzel.


Quando pensamos em números, esquecemos que são 881 pessoas. Seres humanos que estão ou não estão ligados ao tráfico, policiais (que também fazem parte de outras estatísticas), crianças e adolescentes que tentam sobreviver ao dia a dia de uma vida limitada por uma guerra. Como dizer ao jovem de 16 anos que ele teria uma vida de prosperidade se frequentar a escola todos os dias, fizer suas lições e perseverar, quando ele foi morto enquanto ia ao treino? Como dizer para as crianças da escola de muro verde, na favela Salsa e Merengue, na comunidade da Maré no rio, que se abaixaram e ficaram todas unidas, enquanto um helicóptero atirava por cima da escola, que elas são o futuro do país? (@davidmirandario no twitter).


A estratégia de ataque do Governador do Rio mira grupos do tráfico que são conhecidos na região. Nenhum dos mortos levantados pelo ISP estavam em áreas que são conhecidamente dominadas por milicianos. A noção de milícia é complexa de explicar, mas eu vou tentar resumir. Ela é um braço paralelo do poder que envolve policiais corruptos e/ou ex-policiais. Eles começaram por prometer proteger as comunidades em troca de pagamento e, aos poucos, foram usando a força para expulsar os traficantes e ficar com o controle do local.


Hoje, sabe-se que as milícias têm apoio de políticos eleitos em diversos níveis. A política de abate do Witzel, então, é focada apenas no combate aos traficantes. Ele tem poupado as milícias e isso tem levantado a desconfiança dos especialistas em segurança pública.


Segundo Tainá de Paula, Arquiteta e urbanista, colunista do coletivo Mídia Ninja, o governo do Rio de Janeiro está “diminuindo os territórios do comando vermelho e de outras facções, pulverizando o tráfico para os arredores, diminuindo roubos e furtos da capital e deslocando roubos e furtos pra Região Metropolitana, aumentando a letalidade por armas institucionais, implementando a barbárie”.


Todo esse freak show apenas ajuda a jogar a sujeira para debaixo do tapete, empurrar o problema para áreas periféricas e ganhar pontos com seu eleitorado que quer ver ainda mais sangue. Os seres humanos que não têm direito a paz, educação, condições mínimas de sobrevivência e, muito menos, devido processo legal, continuarão sendo julgados e condenados em plena luz do dia mesmo que seu único crime tenha sido nascer pobre morador de favela.


Em um adendo, ainda segundo a BBC News Brasil (07.05.2019), um grupo de trabalho formado neste ano por entidades como o Ministério Público Federal, a OAB, a Defensoria Pública e organizações da sociedade civil lançou, no fim de abril, nota técnica analisando as falas do governador e tecendo críticas ao que chama de "Doutrina Witzel". Esperamos que não fiquem apenas nesta nota.


Nesse texto eu usei informações da BBC News (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48190478) e UOL (https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/08/20/policias-mataram-881-pessoas-em-6-meses-no-rj-nenhuma-em-area-de-milicia.htm).

Para seguir no Twitter e saber mais sobre o que acontece no Rio de Janeiro: @fogocruzadoapp @vozdacomunidade @davidmirandario @midianinja





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