• Tassi Oliveira

O lar pode ser o pior lugar para muita gente


Em um momento em que todos pedem para "ficar em casa", obedecer a esse comando pode ser desesperador para muitos. A casa pode ser uma jaula para muitas pessoas. Eu sei que muita gente fala do privilégio de quem pode parar e trabalhar de casa, mas ainda não vi falarem sobre aqueles que têm a escola ou o trabalho como um espape das torturas da vida em casa.


Mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência. De maneira geral, pessoas vulneráveis às violências mais diversas devem estar, neste momento, vivendo um pesadelo em várias partes do mundo. Para as mulheres vítimas da violência doméstica, o trabalho é, sem dúvida, um meio de se empoderar e de fugir daquela violência. Não poder sair de casa significa ter que conviver com a violência. A prisão domiciliar forçada pelo avanço desta doença pode matar muitas mulheres, em vez de protegê-las. É um efeito colateral do absurdo.


Crianças vítimas de abuso dentro de casa também virarão alvo fácil dos seus abusadores. A escola é o ambiente protegido que muitas delas ainda têm. O convívio diário poderá piorar o abuso, uma vez que quanto maior o tempo de convivência, maiores serão as oportunidades de gatilho. A quantidade de crianças que já estão sofrendo silenciosamente ninguém ainda noticiou. Talvez ninguém as escute. Elas não importam diante dos números de pessoas infectadas com a tal covid-19.


Idosos que sofrem violência por parte de seus cuidadores (filhos, sobrinhos entre outros) também não serão contabilizados. Eles continuarão a sofrer silenciosamente e a convivência forçada deve elevar estes casos.


São milhões de vítimas invisíveis da quarentena. As vítimas que preferiam correr o risco da doença à certeza da violência naquele que deveria ser o lugar mais seguro para elas: suas casas. É terrível imaginar que mesmo quando a gente tem um lugar para morar (não estou nem mencionando os sem-teto), esse lugar pode ser o último que gostaríamos de estar.


Meu coração vai para quem está, silenciosamente, passando por isso agora. Se precisar falar, contem comigo e desejo força para denunciar.


P.S.: Não estou questionando a recomendação de ficar em casa. Eu sei que é o necessário e estou respeitando. Mas só hoje me dei conta que para muitos essa pode ser uma sentença de morte. E eu sinto muito 1 - por isso; 2 - pela minha ignorância.




Imagem: Ulrike Mai por Pixabay

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